CRITÍCA | Resident Evil (2026): começa como um ótimo survival horror, mas tropeça no terceiro ato

Resident Evil (2026), dirigido por Zach Cregger, de Noites Brutais, encontra uma maneira interessante de levar a franquia para o cinema ao abandonar, pelo menos inicialmente, a necessidade de reproduzir exatamente as histórias protagonizadas por personagens conhecidos dos games. O filme começa muito bem ao apostar em uma história original, centrada em um cidadão comum, mas perde força justamente quando chega à sua reta final.
O longa acompanha Bryan (Austin Abrams), um entregador de medicamentos que está a caminho do Hospital Geral de Raccoon City para realizar uma entrega. O que deveria ser apenas mais uma noite de trabalho, em meio à neve, transforma-se rapidamente em uma corrida desesperada pela sobrevivência quando criaturas estranhas começam a surgir pela cidade.Sem compreender o que desencadeou os acontecimentos violentos, Bryan tenta encontrar uma saída enquanto percebe que a situação é muito maior do que imaginava. Em determinado momento, inclusive, liga para sua namorada para se despedir, dando ao personagem uma dimensão humana que funciona bem dentro da proposta.
É nos dois primeiros atos que Resident Evil realmente mostra seu potencial. A atmosfera é um dos elementos mais fortes do filme. A cidade coberta pela neve, o isolamento e os ambientes pouco acolhedores ajudam a criar uma sensação constante de perigo. Cregger consegue capturar bem aquilo que torna o survival horror tão eficiente: a impressão de que os recursos são limitados e de que qualquer ameaça pode representar um problema enorme.Existe uma sensação de escassez, tensão sufocante e isolamento que remete diretamente à experiência dos jogos. O filme entende que o terror não precisa acontecer o tempo inteiro. Muitas vezes, basta saber que existe alguma coisa à espreita para criar tensão.

Outro ponto positivo é o trabalho de Zach Cregger na construção do suspense.O diretor combina momentos de silêncio e expectativa com criaturas assustadoras e sequências de violência que ajudam a estabelecer o longa como uma experiência genuinamente voltada ao horror. O gore também aparece na medida necessária para reforçar a brutalidade daquele universo, sem transformar cada cena em uma simples demonstração de violência. É nesse equilíbrio entre suspense, horror e sobrevivência que o filme funciona melhor.
Outro aspecto interessante é a maneira como a produção utiliza recursos visuais que remetem à experiência de jogar Resident Evil. Em alguns momentos, a utilização pontual da perspectiva em primeira pessoa, somada à exploração de ambientes e à progressão por cenários angustiantes, cria uma conexão evidente com os jogos. Não se trata simplesmente de colocar referências visuais para agradar aos fãs. A linguagem cinematográfica ajuda a reproduzir algumas sensações que fazem parte da experiência de jogar um survival horror. É justamente por isso que os dois primeiros atos funcionam tão bem.
É quando Resident Evil (2026) chega à reta final que minha percepção sobre o filme muda consideravelmente. O problema não está na ideia de contar uma história original dentro do universo da franquia. Como mencionado anteriormente, considero essa escolha um dos acertos da produção. O problema está na maneira como a narrativa decide concluir essa história. A partir do terceiro ato, alguns personagens coadjuvantes, especialmente os cientistas envolvidos na situação, passam a tomar decisões que considero pouco convincentes. Os diálogos e determinadas atitudes desses personagens acabam enfraquecendo a tensão construída anteriormente. A situação chega ao ponto de o antivírus ser sintetizado a tempo, mas a hesitação e o medo dos cientistas acabam atrasando o procedimento.
Não vou entrar em maiores detalhes para evitar spoilers, mas essa decisão narrativa foi um dos elementos que mais me incomodaram. Depois de dois atos construindo uma experiência de sobrevivência marcada por tensão, escassez e desespero, a conclusão acaba dependendo de decisões de personagens que, em determinados momentos, parecem pouco coerentes com aquilo que a própria história havia estabelecido. E isso prejudica justamente a reta final.
Outro problema está na forma como o terceiro ato desloca o foco de Bryan, que havia sido o principal elemento de identificação do espectador. A proposta de acompanhar um cidadão comum tentando sobreviver em meio ao caos era interessante justamente porque mantinha a história relativamente próxima do personagem. Porém, conforme a trama avança, outros elementos passam a ocupar espaço demais e a resolução deixa de ser tão centrada na jornada de Bryan. Na minha avaliação, isso enfraquece o impacto da conclusão. O filme havia encontrado uma identidade própria ao acompanhar um entregador tentando sobreviver em uma Raccoon City tomada pelo horror. A reta final, entretanto, parece abandonar parte dessa simplicidade para apostar em decisões de roteiro que acabam sendo menos convincentes.

Resident Evil (2026) é um filme que começa muito bem e entrega, durante boa parte de sua duração, uma experiência de terror que entende o espírito do survival horror. A escolha de um protagonista comum, a atmosfera de isolamento, a sensação de escassez, as criaturas, o gore e a linguagem visual inspirada nos jogos são elementos que funcionam muito bem, principalmente durante o primeiro e o segundo atos. O problema é que toda essa construção perde força no terceiro ato. A narrativa tropeça em decisões de roteiro que, na minha opinião, são pouco convincentes, especialmente envolvendo os cientistas e a resolução do conflito. Além disso, a conclusão tira parte do foco de Bryan e enfraquece uma proposta que vinha funcionando justamente por ser mais simples e centrada em um personagem comum. Não pela escolha criativa, mas da maneira que foi feia.
No fim, o filme como uma boa experiência de horror até o final do segundo ato, mas tropeça justamente quando precisa entregar sua conclusão. É uma pena, porque havia ali uma produção com potencial para terminar tão bem quanto começou.
NOTA: 05/10 – Resident Evil (2026) encontra o verdadeiro espírito do survival horror nos dois primeiros atos, mas desperdiça boa parte dessa construção com um terceiro ato decepcionante e uma conclusão pouco convincente.
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