Crítica: A Primeira Temporada de “Lanternas”— Quando o Desejo de Subverter Vira Ruína Criativa

Crítica: A Primeira Temporada de “Lanternas”— Quando o Desejo de Subverter Vira Ruína Criativa
HBO/DC Studios

A aposta da HBO e da DC Studios em trazer o universo dos protetores esmeraldas para a televisão através de Lanternas gerou imensa expectativa. Com um elenco estelar encabeçado por Aaron Pierre (John Stewart) e Kyle Chandler (Hal Jordan), além de nomes de peso como Kelly Macdonald (xerife Kerry Kane) e Poorna Jagannathan como Zoe Macon (uma Manhunter disfarçada), a série prometia ser o grande drama “pé no chão” do novo DCU.

Inspirada no formato de True Detective, a premissa de acompanhar dois policiais intergalácticos investigando um assassinato sombrio em uma cidadezinha de Nebraska tinha tudo para triunfar. No entanto, o resultado foi uma primeira temporada marcada por decisões de roteiro altamente questionáveis, que conseguiram alienar tanto os fãs de longa data dos quadrinhos quanto parte da crítica especializada focada em coesão narrativa.

A maior ferida aberta pela série — e o epicentro da ira dos fãs — aconteceu logo nos primeiros episódios. Transformar Hal Jordan (Chandler) em um veterano amargurado, cínico, decadente e lidando com sérios problemas com álcool seguiu a exaustiva fórmula hollywoodiana de desconstruir heróis clássicos para torná-los “sombrios e realistas”. Isso até poderia soar interessante, se a transição de manto entre Hal Jordan e John Stewart tivesse sido conduzida com o respeito e o fôlego épico que a mitologia dos quadrinhos exige. Porém, não foi o caso… Infelizmente, ao optar por um niilismo gratuito e por chocar o espectador através da destruição do legado de Hal, a série trocou a grandiosidade de uma passagem de manto histórica por um drama barateado. O resultado não foi uma evolução corajosa do universo DC, mas a sensação amarga de um potencial monumental desperdiçado.

HBO/DC Studios

Em meu ponto de vista, Hal Jordan não precisaria ser descaracterizado, transformado em um bêbado decadente ou descartado tragicamente para abrir espaço. Pelo contrário, sua aposentadoria ou transição para um papel de mentor lendário poderia ter sido construída com peso emocional — mostrando o peso dos anos de serviço e a necessidade de um novo tipo de guardião. Em paralelo, a ascensão de Stewart não seria tratada como um erro burocrático ou uma anomalia forçada, mas como o reconhecimento natural de sua genialidade tática, sua força inabalável de vontade e seu histórico impecável. Ver Hal passando o anel — ou o anel escolhendo John sob a bênção do veterano — traria aquele arrepio clássico que o fandom tanto esperava, unindo gerações de fãs em vez de criar uma trincheira de revolta.

Apesar disso, a roteiro optou em apresentar um desfecho da linha temporal confirmando o destino trágico de Hal no presente, estreitando as bases de um novo universo compartilhado (o DCU) descartando e matando o principal ícone da mitologia esmeralda logo no início. Ou seja, em meu ponto de vista, um erro colossal e um desperdício do talento de Kyle Chandler.

Embora Aaron Pierre entregue uma atuação magnética e fisicamente impozente como John Stewart, as liberdades criativas dos roteiristas (liderados por Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King) geraram atrito. A decisão de fazer de Stewart um “anomalia” recrutada diretamente pelos Guardiões do Universo em vez de ser escolhido organicamente pelo anel rompeu com a essência meritocrática e militar do personagem nos quadrinhos.

Falando nisso, a escolha de Poorna Jagannathan para dar vida a Zoe Macon — revelada como uma Manhunter disfarçada — consolida-se como uma das adaptações de vilões mais desastrosas e preguiçosas da história dos super-heróis em live-action. Em vez de explorar a ameaça implacável, robótica e sistêmica que os Caçadores Cósmicos representam na mitologia da DC, a série reduz uma antagonista de peso a um clichê raso, onde sua suposta relevância desaparece em favor de subtramas baratas baseadas puramente na sedução para manipulação, desperdiçando completamente o talento da atriz e traçando um retrato totalmente esvaziado do perigo que o manto exigia.

Sob o pretexto de entregar um thriller policial focado na Terra (“True Detective espacial“), a série optou por podar quase todo o escopo cósmico que define o núcleo dos Lanternas Verdes. A ausência de elementos clássicos, como menções adequadas a figuras fundamentais (Kilowog, Tomar-Re) e a escassez de ação intergaláctica genuína, frustraram quem esperava ver a grandiosidade da Tropa em tela. O pretexto “pé no chão” muitas vezes transpareceu como uma muleta orçamentária para economizar em efeitos visuais, limitando a grandiosidade sci-fi a diálogos claustrofóbicos no interior de Nebraska.

Outro ponto a ser criticado é que, mesmo se ignorarmos o material original dos quadrinhos, Lanternas sofre de graves problemas de consistência interna. A trama arrastada tropeça em sua própria mitologia, alternando linhas temporais confusas (2016 e 2026) que muitas vezes priorizam reviravoltas vazias e diálogos pretensiosos em detrimento do ritmo. Personagens secundários orbitam Rushville sem muito propósito além de inflar a duração dos episódios, resultando em um final de temporada frouxo que deixa mais frustrações do que respostas sólidas para o futuro do DCU.

HBO/DC Studios

A primeira temporada de Lanternas prova que subverter expectativas por si só não substitui o respeito à essência dos personagens. Embora o elenco entregue performances técnicas impecáveis — com destaque para a imponência de Aaron Pierre, o texto derrapa ao adotar um niilismo cínico desnecessário com Hal Jordan e ao podar a grandiosidade do universo dos quadrinhos em prol de um drama rural genérico.

Nota: 03/10 – No fim, a série funciona como um drama investigativo meia-boca , mas para quem esperava a justiça devida aos protetores de Oa, o saldo é de uma oportunidade perdida por excesso de soberba criativa.

Acha que as escolhas criativas da série conseguem se sustentar em uma eventual segunda temporada ou a DC errou a mão logo no início do novo universo?

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Aldo Abreus

Acredito que conhecimento e entretenimento caminham juntos, tornando o mundo geek cada vez mais acessível para todos.

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